É POSSÍVEL ACREDITAR NAS FARC?

 

Timochenko diz que já entregou 30% de seu arsenal. Podemos acreditar nele?

Eduardo Mackenzie

A página web da Radio Santafé, e outros meios de informação, afirmaram ontem que “a guerrilha das FARC já entregou à ONU 30% de suas armas”. Esse jornal apresenta como um fato confirmado algo que não é mais que a afirmação do chefe das FARC, Rodrigo Londoño Echeverri, vulgo Timochenko. Quando será que os jornalistas colombianos saberão fazer a distinção entre a afirmação direta de uma fonte e um fato cumprido?

Timochenko só fez uma frase. Faltam as provas do que ele afirma. Até agora ninguém viu os famosos conteiners da ONU repletos com os 󈬎% do arsenal de armas que esse grupo subversivo possui”, como dizem os jornalistas crédulos.

No mesmo dia, outro cabeça das FARC, vulgo Iván Márquez, dava a outra rádio uma cifra maior, mas não a mesma. Disse que haviam entregado 𔄚.230 armas”, quer dizer, 󈬏%” do arsenal fariano. Muito mais prudente, a agência francesa AFP disse que esse dado era somente uma “indicação dada pelas FARC”.

As alegações de Timochenko e de Iván Márquez não inspiram confiança. Quem pode acreditar neles depois da montanha de mentiras que esses indivíduos jogaram nos meios de comunicação durante o pretendido “processo de paz”? Onde há, ao menos, uma foto desse embarque de armas? Onde está o testemunho circunstanciado dos funcionários da ONU encarregados de constatar e protocolizar essa entrega de armas nas 26 zonas veredais e “pontos transitórios” onde se instalaram uma parte das FARC?

Onde estão os jornalistas que foram testemunhas dessa entrega de armas? Em nenhum lugar. Ninguém viu nada e ninguém sabe de nada, na verdade. A última vez que soubemos dos funcionários da ONU encarregados de vigiar essa entrega foi na semana passada: estavam em um restaurante em plena farra com alguns chefes das FARC. Vários cidadãos que os descobriram os interpelaram publicamente e reprovaram, a gritos, tal cumplicidade com os chefes narco-terroristas. O que fizeram os envergonhados funcionários da ONU foi sair correndo em suas caminhonetas de vidros escuros. Alguém filmou a cena e essas imagens deram a volta ao mundo.

Após as revelações do Promotor Geral, Néstor Humberto Martínez Neira, sobre o gigantesco botim de guerra que as FARC têm bem escondidos e que seus cabeças negam ter e que na realidade querem utilizar, não para indenizar suas vítimas mas para intoxicar o país com sua desinformação massiva, Timochenko e os chefes dessa organização não sabem como manipular as consciências das pessoas que os ouvem. Segundo uma rádio bogotana, Timochenko assegurou: “Este [é] o começo efetivo de nosso adeus às armas. 30% de nosso armamento foi entregue às Nações Unidas que o depositou em seus conteiners e certificaram a deixação de armas de nossos combatentes. Jamais voltaremos a empregar a violência, nossa única arma será a palavra. Prometemos e estamos cumprindo”. Onde está a certificação da ONU? Quem da sociedade pôde verificar esse conto dos conteiners que continham 󈬎% das armas” das FARC? Que tipo de armas entregaram? Onde estão as listas dos registros dessas armas, com seus respectivos números? Ninguém sabe de nada.

Igualmente vago e obscuro é o calendário da entrega do resto do material bélico do bando. Após a entrega invisível de ontem, o resto será, segundo Timochenko, assim: “Em 14 de junho, outros 30%. Em 20 de junho, o restante 40%”.

Sejamos sérios. Enquanto a Procuradoria Geral da Nação e a Controladoria Geral da República, e uma delegação do Congresso da Colômbia, com membros do oficialismo e da oposição, não vejam a materialidade desses supostos conteiners repletos de armas, devidamente repertoriadas, ninguém está autorizado a acreditar nas afirmações alegres de Timochenko e Iván Márquez. As FARC continuam mais armadas do que nunca.

A Procuradoria Geral da Nação e a Controladoria Geral da República são os organismos de controle designados pela Constituição Nacional, a autêntica e única, não a gororoba de 310 páginas que as FARC-Santos querem impor ao país como uma nova Constituição de maneira arbitrária. O Ministério Público Federal também está chamado a exercer funções neste assunto. Como o desarmamento e o rearmamento das organizações ilegais afetam os direitos fundamentais dos cidadãos, o Ministério Público tem a obrigação de “assegurar os elementos materiais probatórios, garantindo a cadeia de custódia enquanto se exerce sua contradição”, diz o Artigo 250, parágrafo 3, da Constituição Nacional.

O que dizem os pactos Santos-FARC que o Congresso e os organismos de controle do Estado não podem participar na verificação do desarmamento das FARC? Esse argumento não tem peso. Os pactos Santos-FARC, que inventaram um mecanismo pró-fariano para “verificar” à sua maneira esse desarmamento, não existem juridicamente. O plebiscito de 2 de outubro de 2016 os aboliu em sua totalidade. O que se seguiu a essa abolição foi uma grotesca escaramuça que jamais adquiriu vistos de legalidade. Logo, a legislação que é aplicável nestas circunstâncias é a Constitucional promulgada em 7 de julho de 1991.

Um diário de Medellín admitiu que “até o momento, como assinala o acordo, [as FARC] não permitiram o ingresso de nenhum meio de comunicação ou de civis, com exceção de NC Noticias das FARC, para documentar a recepção do arsenal”. Quer dizer, só as FARC viram que as FARC estão entregando suas armas. Que beleza! Essa gente espera que os colombianos levemos a sério semelhante circo.

Esse jornal detalhou que os agentes da ONU tomaram “alguns registros”, porém em nenhum [dos que mostrou à imprensa] se vê o momento da “deixação de armas”. Parece que os guerrilheiros temem que os fotografem entregando os instrumentos com os quais mataram, seqüestraram e roubaram a milhões de colombianos. Para justificar a “sensibilidade” desses matarifes o redator acrescentou: “A entrega de armas, em termos militares, estabelece a derrota do adversário”. A conclusão do jornal seria então: as FARC estão sim entregando as armas, porém não querem que os vejam derrotados. Logo, devemos acreditar no que não vemos porque é isso que o bando narco-terrorista exige. Pois não. Que os organismos de controle da Colômbia e que o poder legislativo e a imprensa, verifiquem primeiro esse tema do desarmamento das FARC. Depois acreditaremos.

Tradução: Graça Salgueiro