REFLEX’ES SOBRE O SIGNIFICADO DA VIDA

 

RELENDO SPINOZA

Jacy de Souza Mendonça



Passados os 25 dias da convalescença, retomo, com outros olhos e outra cabeça, a leitura da memorável página da Ética (volume V, capítulo XXIII, escólio), na qual o notável filósofo holandês Baruch SPINOZA gravou sua sintética frase programática: nós nos sentimos e nos queremos como eternos. De fato, talvez porque não tenhamos como lembrar o momento milagroso de nosso nascimento, desconsideramo-lo em nossas tomadas de consciência do dia a dia e vivemos como se o mundo tivesse começado exatamente quando também começamos e como não queremos abandonar o paraíso terreno, esse vale de lágrimas no qual fomos abandonados, muito menos desejamos imaginar a transição dele para não sabemos onde, por isso, tudo fazemos como se essa inelutável mudança jamais fosse existir. Resta, assim, aceitarmo-nos como eternos, mesmo que de forma rotundamente equivocada e até absurda.

Acontece que a realidade é bem outra: a vida nos é emprestada como um bem transitório, muito transitório até, mais frágil do que porcelana chinesa, para ser apenas usada por algum tempo, com a duração de uma dama da noite. E por mais que dela cuidemos, irá esfacelar-se em nossas mãos, queiramos ou não. Cumpre-nos, no entretanto, fazer o possível para conservá-la, em que pese a certeza da inutilidade desse zelo. Um esforço de conservação como que obrigatório.

É saudável, por outro lado, a tomada fria de consciência dessa fragilidade existencial. Tudo muda de significado em face dela: o que nos parecia indispensável decai em importância e o que nos parecia desprezível adquire consistência fundamental.

A enfermidade é, pois, ou deveria ser sempre, um momento importante e significativo para nós. Embora também inevitável e indesejável, cumpre seu papel existencial de forma preciosa. Graças a ela, apesar de sermos como caniços que o vento quebra, podemos, como SPINOZA, alimentar o belo sonho de nos sentirmos e nos querermos, todos os dias, como eternos.