TRÂNSITO NA ÍNDIA E NO BRASIL
 

 

O TRÂNSITO

Jacy de Souza Mendonça


Nunca estive na Índia, mas todos os amigos que lá estiveram voltaram negativamente impressionados com o trânsito urbano. Dizem que ninguém obedece a regra de mão e contramão, misturam-se veículos leves e pesados com pedestres e animais (principalmente vacas). Um perfeito caos.

Não sei porque o espanto. Estamos indo na mesma direção. Depois que inventaram e instalaram os radares, só estes funcionam, porque são instrumentos de arrecadação, mesmo assim, a velocidade regulamentada só é obedecida nas proximidades desses aparelhos. Guarda de trânsito aparece apenas in extremis. Cada motorista faz o que bem entende resolve o problema dele e outros que se danem. Ciclistas têm faixas próprias que retiram espaço das pistas, mas as ciclovias ficam às moscas. Motoqueiros se multiplicam como formigas e fazem todas as loucuras imagináveis entre os outros veículos, porque não há pista reservada para eles.

Em uma síntese diabólica, há ciclovias para bicicletas que não existem e há motoqueiros sem que haja pista para eles. O piso das vias públicas vai melhorando na medida em que um buraco cresce até encontrar seu vizinho. O reparo de uma cratera dura até a próxima chuva.

Os pedestres, copiando os motoqueiros, ameaçam os motoristas com a própria vida: não ligam para faixas privativas deles, são capazes de atravessar a pista a poucos metros de suas faixas, com total desprezo por elas. Mas na verdade a duração do tempo previsto para o pedestre concluir sua travessia é inferior ao que ele realmente necessita, mesmo sem ser um idoso ou ter alguma dificuldade de locomoção. Cada motorista estaciona seu veículo onde quer para resolver seu problema, despreocupado com o caos que está gerando para os demais isso se algum flanelinha não for o proprietário da área.

Mão e contramão são mais respeitadas entre nós, mesmo assim com brutais exceções. Os guardas de trânsito passaram à categoria de guardas de radares, ou seja, órgãos de arrecadação. O veículo que consegue se desviar com sucesso da buraqueira é surpreendido por uma calota que atravessa a via esburacada, a pretexto de reduzir a velocidade, mas trazendo como consequência os engavetamentos porque o veículo de trás não imaginava que o da frente necessitasse brecar.

Há carência total de sinalização de roteiros, de forma que um estrangeiro é incapaz de dirigir qualquer veículo aqui – as ruas são nossas. Não há um padrão lógico de velocidade para as vias públicas e a mutabilidade dos sinais indicadores de limite de velocidade é tal que, se o motorista tiver sucesso em olhar para todos irá estropiar-se na traseira de outro colega de infortúnio. Pelo menos a terça parte do espaço de rolamento criado pelas vias públicas é utilizada como estacionamento gratuito.

Como ridicularizar o trânsito na Índia?