CABRAL, O TRÂNSITO DE SÃO PAULO E AS ÍNDIAS
 

 

AS ÍNDIAS

Jacy de Souza Mendonça


No ano de 1500 Pedro Álvares CABRAL partiu com suas caravelas da Europa, em direção ao ocidente, pretendendo encontrar novo e mais curto caminho para as Índias. Aportou nas imediações do Monte Cabral. Pensava ter colimado seu desiderato, mas estava enganado. Encontrou algumas estranhas figuras humanas que, a julgar por seus planos, denominou índios. Graças a esse equívoco, foi redescoberto o Brasil (que Cristóvão Colombo havia descoberto) e nossos aborígenes são conhecidos, até hoje, como índios, embora índios nunca tenham sido.

Se agora outro Cabral (já temos tantos!), também aventureiro, voando em um avião na direção do ocidente, sem meta definida, chegasse de repente a São Paulo, sem saber, e fosse impactado pelo caótico trânsito dessa metrópole, acreditaria piamente, como o primeiro Cabral, ter finalmente chegado à Índia, pois, aqui como lá, não há mais mão nem contramão, nem há passagem restrita a pedestres que funcione. Aqui, como lá, cada um faz o que bem entende, resolve o seu problema absolutamente despreocupado com os outros. Não há mais fiscais de trânsito. É verdade que não temos vacas sagradas transitando entre os veículos, mas, em compensação, temos um enxame de motoqueiros que se têm por sagrados e intocáveis, que confiam em seu anjo da guarda e acreditam que os demais motoristas estão cuidando de suas vidas. A única diferença, embora fundamental, é que temos muitas câmeras de radar camufladas entre as árvores com a missão de autuar motoristas imprudentes e inadvertidos por ultrapassarem a velocidade que está, também disfarçada, prescrita em imperceptíveis placas de trânsito. Outra diferença consiste em que tais radares, embora em nada contribuam para a organização do tráfego, alimentam o erário público com a cobrança de polpudas multas.

Dois cochilos históricos envolvendo Cabral e as Índias.