REINÍCIO DA GUERRA NA COLOMBIA?
 

 
Timochenko ameaça com uma nova guerra


Eduardo Mackenzie


Pouco depois que Gustavo Petro ameaçou o país em praça pública com uma revolta se não ganhasse as eleições, um meio de comunicação internacional foi até um lugar desconhecido em uma região afastada para estender amavelmente o microfone a Timochenko para que repetisse a dose. Com efeito, cinco dias antes do primeiro turno da eleição presidencial, o chefe das FARC lançou frases de intimidação contra os votantes através de France 24 em Espanhol, um canal de televisão francês com sede em Bogotá.


O diretor desse meio de comunicação, Álvaro Sierra, foi conduzido a um lugar escondido que Timochenko designou apenas como "Puerto Esperanza". Permitiram que Sierra dissesse que era uma "vereda camponesa nas planícies orientais da Colômbia", o que é muito vago. Calar isso é pouco deontológico. Em um dado momento, a câmera capta a passagem de dois guardas armados que vigiavam a entrevista.


A primeira frase de Timochenko foi para dar a entender o quê são as FARC. Ante os pobres resultados obtidos por essa organização nas eleições  legislativas, o chefe terrorista se ufanou: "12 mil combatentes já estamos com 50.000 votos. Isso não é um resultado modesto, e isso porque todos os combatentes não puderam votar". Ao falar três ou quatro vezes nessa entrevista de "combatentes", não desmobilizados, Timochenko indica que seu bando continua em pé de guerra, embora Santos e sua imprensa digam o contrário, pois se ele tem "combatentes" e não desmobilizados, é para jogar algo muito diferente da concórdia nacional. Não se entende por quê a imprensa, ante o que Timochenko diz, insiste em descrever as FARC como uma "ex-guerrilha".


Timochenko explicou em seguida que as FARC são vítimas do país, que a muitos de seus "combatentes" lhes puseram travas para que não pudessem votar, que o dinheiro "lhes chegou no último momento", que não lhes deixaram fazer campanha "com todas as da lei" e que as regras do jogo [eleitoral] "não haviam mudado". Seu interlocutor parecia estar de acordo com essas informações. O chefe fariano aduziu que a "batalha número 1" das FARC é a "reconciliação", mas que ela não avança por culpa dos demais, sobretudo "dos meios de comunicação e da propaganda". Ele estimou que "há sinais muito perigosos, pois há gente que quer que se reverta o processo" da "implementação dos acordos" de Havana, e que as FARC estão sendo "estigmatizadas" para "justificar a liquidação do contrário". 


O jornalista evocou a detenção de Santrich, "acusado supostamente de conspirar para enviar cocaína aos Estados Unidos". Essa captura põe em risco o processo? "Claro", respondeu Timochenko, que pensa que seus inimigos "buscam não só a Santrich mas à direção das FARC", porque o tema do narco-tráfico "serviu para nos estigmatizar (&hellip), para mostrar que éramos uns criminosos, uns sanguinários e que a única coisa que nos interessa é o dinheiro". Em troca, os outros "querem que a sociedade nos rechace". E concluiu: "As FARC não fomos narco-traficantes".


Após esse aquecimento de motores, Timochenko passou ao auge da ameaça. France 24 em Español estima que "o uribismo" é o setor que "mais duramente se opôs aos acordos" de Havana. Se Iván Duque ganhar as eleições "o processo perigaria seriamente?", perguntou Sierra. Timochenko respondeu: "Estamos na etapa final do Governo de Santos e o processo está perigando. Se a sociedade colombiana e a comunidade internacional não se unirem [para] acompanhar este processo, não digo que vamos à guerra novamente, mas podem ficar plantadas as sementes para um novo conflito. Para nós não há volta atrás".


Sierra: "Vocês também fizeram coisas terríveis durante a guerra e resistiram a pedir perdão, em alguns casos o fizeram mas não como algo amplo e mais geral". Tratado de esquivar o ponto, o chefe fariano atacou: "Essa é uma opinião sua, não uma pergunta". Antes de lançar, colérico: "O que querem que eu diga? Que me arrependo do que fui? Eu não me arrependo!".


Timochenko usa com freqüência o truque de transformar a sangrenta trajetória das FARC em simples "erros". "Que se cometeram erros? Sim. Porém que erros e em que contexto se cometeram esses erros?", perguntou. E com o cinismo mais brutal fez este malabarismo verbal: :"Nunca jamais se disse nas FARC a um comandante: vá com sua tropa e chegue a este povoado e acabe com toda a população civil que há lá. Nunca". A memória de Timochenko está picotada? Não, o homem relega melhor o que quer que os colombianos esqueçamos: a montanha de atrocidades cometidas pelo narco-comunismo durante 50 anos. O diário El Tiempo, de Bogotá, em agosto de 2016, publicou um excelente mapa [1] das maiores matanças que as FARC cometeram nos últimos 20 anos, nas quais assassinaram 609 colombianos. Lá estão as de Bojayá, El Nogal, Mitú, Tarazá I e II, La Gabarra, Tierralta, El Billar, Barbacoas, Valdivia para nomear somente dez delas. Lástima que France 24 em Español tenha esquecido, nessa entrevista e até no resumo que fez desse encontro, esses dados históricos [2].


Se Álvaro Sierra tivesse conhecido esses fatos, teria suportado sem debochar do que lhe lançava Timochenko? "Se em alguma ação nossa se afetou a população civil foi pelas circunstâncias da confrontação, foi porque de imediato não se previu, porém nunca se disse vá e assassinem 15, 20 pessoas nesse povoado". Não foi isso, exatamente, o que fizeram os chefes das FARC antes de cada matança? Convencido de que não haveria contestação, Timochenko se atreveu a rematar com isto: os que matam a população são "os para-militares, como uma política de Estado". Quer dizer, o Estado. O silêncio de Sierra ante essas enormidades é assombroso. Sua entrevista permitiu a Timochenko fazer terrorismo midiático cinco dias antes de umas cruciais eleições presidenciais da Colômbia. Nunca poderemos esquecer essa péssima atuação de France 24 em Español.


Notas do autor:






Tradução: Graça Salgueiro